Hérois dos Jogos Pan: Rosângela Conceição
A série Heróis dos Jogos Pan relembra neste domingo a primeira medalha da Luta Feminina brasileira em uma edição de Jogos Pan-americanos. A medalha de bronze conquistada por Rosângela Conceição, a Zanza, na categoria até 72kg do estilo livre feminino. O primeiro contato da atleta com a Luta Olímpica foi no fim dos anos 90. Na época, Rosângela fazia parte da equipe brasileira de judô e procurou dois esportes que a ajudassem a melhorar o desempenho na modalidade: o Jiu-Jitsu e a Luta Olímpica. Melhor para a Luta Olímpica, que ganhava uma atleta obstinada e com bons resultados em todos os esportes que disputou.
“Depois de perder a seletiva olímpica do judô para Atenas fiquei arrasada, com depressão mesmo, e sempre que encontrava o treinador cubano Eugênio, ele me convidava para fazer Luta Olímpica. Ele dizia que já que eu havia perdido e tinha o sonho de ir para os Jogos Olímpicos, deveria treinar Luta Olímpica. Comecei a treinar forte luta olímpica faltando três semanas para Copa Brasil 2003, acabei vencendo e entrando na seleção que já se preparava para disputar a seletiva para os Jogos Olímpicos da Grécia”, relembra Rosângela.
No ano seguinte, Zanza disputou vaga para os Jogos Olímpicos de Atenas já na Luta Olímpica, era a primeira vez que as mulheres da modalidade participariam da centenária história dos desportos olímpicos. Apesar da não classificação, a brasileira somou uma experiência que faria diferença na seletiva seguinte (Rosângela foi a primeira mulher a representar o Brasil nos Jogos Olímpicos, em Pequim-2008). O próximo passo era preparação para os Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, onde as mulheres também competiriam pela primeira vez na história. Depois de vencer uma promissora paulista chamada Aline Silva na seletiva nacional, Zanza teve uma preparação difícil.
“A preparação foi árdua. Eu treinava com um grupo de cinco pessoas em São Paulo depois acabei ficando sozinha. Os irmãos Adrian e Antoine me ajudaram muito e atletas do Jiu-Jitsu também vieram me ajudar. Até que o Eugênio meu treinador na época teve a brilhante ideia de me mandar treinar no Canadá, onde até hoje a equipe brasileira realiza o treinamento. Treinei 40 dias e fez muita diferença, quando voltei já fui direto para a concentração na Escola de Educação Física da Urca. Não foi fácil mas conseguimos treinar”, lembra Zanza.
Nos Jogos Pan-americanos, o sorteio não foi favorável para Rosângela. Logo de cara, teve que enfrentar a americana, Kristie Davis, terceira colocada no campeonato mundial de 2006. A luta foi disputada e terminou a favor de Davis, que acabaria em primeiro lugar nos Jogos, e repescando Rosângela para disputar a medalha de bronze contra a dominicana Sulmira Brea. Zanza colocaria para sempre seu nome na história da Luta Olímpica brasileira.
“Treinei muito para enfrentar a americana e tinha uma vantagem na luta. Até hoje não sei como não ganhei dela (risos). Mas acabei fazendo um movimento errado e ela aproveitou. As americanas têm um número maior de atletas na luta e acredito que isso fez diferença naquela competição. Como ela foi até a final pude voltar para lutar pela medalha e ficar com o bronze”, conta Zanza.
Além do momento de receber a medalha, Rosângela não tira da memória a caminhada até a cerimônia de premiação. Além dos amigos e companheiros de seleção, ela sentiu o calor humano e a força da equipe brasileira. “Ganhar uma medalha em casa foi bem emocionante. A energia brasileira é muito diferente e receber o calor dos brasileiros é uma emoção que acontece poucas vezes na vida da gente. No momento da caminhada até o pódio você vê o rosto das pessoas felizes e te olhando satisfeitas. O povo brasileiro é isso paixão, alegria”, emociona-se Zanza.
Em 2013, Rosângela parou de lutar e passou para o lado de fora dos tapetes. Hoje, Rosângela dá aula para crianças e também defesa pessoal, em Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos. As artes marciais são uma disciplina nas escolas do país, como matemática e ciências, e os alunos são aprovados ou reprovados conforme o desempenho.
“Estou em outra etapa da minha vida. Hoje, passo um pouco do conhecimento que conquistei no esporte e na faculdade para transformar vidas. As crianças daqui não possuem a vivência motora, não brincam como nossas crianças e é um mundo bem diferente, mas vale muito a penas pois sinto que estou fazendo a diferença na vida dessas crianças”, celebra Zanza.
Recado da medalhista:
“Quero desejar para os atletas brasileiros muito boa sorte, que tenham um excelente sorteio. É sempre importante cair em uma chave boa e que acreditem neles mesmos. Eles já chegaram longe e podem chegar ainda mais longe. Tudo é possível. E estarei na torcida”, desejou Zanza.
